"Não estão nos dando a chance de mostrarmos o nosso melhor."
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| Vero no Portland Thorns (Imagem: Meg Williams/Portland Thorns) |
Por: Amanda Marinho
Pela primeira vez na história, a Seleção da
Espanha de Futebol Feminino conseguiu se classificar para uma Copa do Mundo,
por ironia do destino, em um momento em que a Seleção masculina vive crise.
O Planeta
Futebol Feminino conversou com a capitã Espanhola Vero, e ela nos contou
sobre a vida jogando nos Estados Unidos na última temporada em sua passagem
pelo Portland Thorns, sobre a Seleção da Espanha e o assunto do momento: O uso
de grama artificial na Copa do Mundo do Canadá.
Planeta
Futebol Feminino: Primeiro, como foi voltar a jogar nos Estados Unidos, e
trabalhando com o Paul Riley de novo?
Vero:
Foi ótimo, outra vez. Paul tem muita paixão e
profissionalismo, o que me agrada muito. E eu gosto bastante dos Estados
Unidos, para jogar, morar, das pessoas. Dessa vez tinha um algo mais,
tive a sorte de jogar para os torcedores do Portland Thorns, é um adicional e
tanto.
Por onde passou Vero foi vitoriosa. Ganhou títulos
na WPS, na Dammallsvenskan e foi vice campeã da UEFA Champions League Feminina
com o Tyresö na temporada 2013/2014. Porém sua passagem pelo Thorns foi
um pouco diferente. Em Portland, ela encontrou um time com potencial, mas que
não conseguia engrenar.
PFF:
Quando falamos sobre o Portland Thorns sempre rola aquela expectativa, seja
pelas jogadoras, a estrutura ou a torcida do time. Porém, desde a
temporada passada, parece que o time não conseguiu atingir todo seu potencial.
Como era o clima durante os treinos e o que você acha que faltou para que o
time fosse mais regular?
Vero:
Não foi uma temporada fácil. Nosso
objetivo era o título da NWSL e nós sequer jogamos a final. Durante a temporada
tivemos muitos altos e baixos, o que mostra o tamanho do potencial que esse
time tem, mas também que sentíamos falta de alguma coisa para jogarmos em alto
nível sempre. Quando
os resultados são ruins, tudo fica mais difícil, ninguém se sente bem e você
acaba caindo em um ciclo que não te deixa dar seus 100%. Todos tentam, mas
talvez não tenhamos encontrado as peças chaves para trabalhá-las. E
também, o time não esteve completo por muito tempo, e não tivemos a
chance de nos fortalecer e jogar de forma mais compacta em campo a tempo.
PFF:
Você jogou na Suécia, nos Estados Unidos e agora está jogando na Alemanha.
Quais as diferenças entre os campeonatos? Qual é o mais competitivo?
Vero:
Nos Estados Unidos o jogo é mais físico,
a prioridade é estar em forma. Transições defesa/ataque e ataque/defesa são
muito rápidas, e o jogo pode ficar um pouco maluco taticamente. Na
Suécia temos mais tática, conservamos mais a formação. Tive a chance de jogar
no melhor time, com as melhores jogadoras e o melhor treinador, Tony
Gustavsson. Nós compartilhávamos dos mesmos ideais, da mesma filosofia. Na
Alemanha é um pouco de tudo: físico, tático e técnico. Provavelmente a liga
mais completa e competitiva do mundo.
PFF:
Você pretende voltar para a NWSL e o Portland Thorns em 2015 ou você tem outros
planos?
Vero:
Agora, pra ser honesta, eu não sei. Meu
único plano era voltar para a Europa e jogar em uma Liga forte até a Copa do
Mundo. Depois disso estou livre para ir para onde eu quiser e claro, voltar
para a NWSL, e o Portland é uma das opções.
A Espanha se classificou para a Copa do Mundo FIFA
de 2015 com 9 vitórias e um empate, contra a Itália (que selou a
classificação). Foram 42 gols marcados, contra apenas 2 gols sofridos,
totalizando o segundo melhor ataque do Grupo, com saldo de 40 gols.
PFF:
Primeiramente, parabéns! Pela primeira na história a Espanha se classificou
para uma Copa do Mundo de Futebol Feminino. Agora que esse passo foi dado,
quais são as expectativas para o torneio? Qual a mentalidade do time nesse
momento?
Vero:
Estamos tão felizes pelo que foi
conquistado para o futebol feminino espanhol. Finalmente colocamos nosso
esporte onde ele merece estar. Agora não temos nenhuma pressão, não esperaram
nada de nós na nossa primeira Copa do Mundo. Mas, como time, nós pensamos
diferente. Não queremos ir para o Canadá só para curtir a Copa do Mundo. Queremos
competir e mostrar o nossos melhor, temos um bom time e um ano para nos
prepararmos. O primeiro objetivo é avançar da fase de grupos, e depois veremos
onde nosso nível nos colocará. Nosso lema é “Soñar En Grande”, e é isso o que
vamos fazer.
A FIFA e a Confederação Canadense de Futebol se
recusaram a substituir os gramados artificiais dos estádios que serão
utilizados na Copa do Mundo FIFA 2015, e não vendo outra saída, um grupo
de 40 jogadoras levou o caso ao Tribunal de Direitos Humanos de Ontário. Vero
é uma delas.
PFF:
Como as jogadoras começaram a se organizar e decidiram confrontar a FIFA e a
Confederação Canadense de Futebol quanto ao uso de grama artificial na Copa do
Mundo do Canadá em 2015?
Vero:
Todas concordaram que jogar uma Copa do Mundo em
grama artificial era injusto e uma discriminação de gênero. Então estávamos
conversando sobre isso e as jogadoras Americanas assumiram a liderança, elas
eram as únicas que tinham o poder a coragem de começar essa briga. O resto,
como eu, queremos lutar juntas pelos direitos do futebol feminino.
PFF:
Qual a sua opinião sobre o assunto?
Vero:
Como eu disse, é uma discriminação de gênero. É
injusto, o jogo muda em grama artificial, ocorrem mais lesões, a recuperação é
mais demorada (e você joga a cada três dias). Existe uma longa lista de coisas
que a FIFA e a Confederação de Futebol Canadense parecem não querer escutar ou
se importar. E eles são os responsáveis por tomar contar do nosso esporte e
desenvolvê-lo. Não estão nos dando a chance de mostrarmos o nosso melhor. E a
Copa do Mundo masculina nunca será em grama artificial, então por que a nossa?
Não lutamos só por
nós, lutamos por todas as outras garotas que estão vindo. Por todas elas que
merecem sonhar em jogar nos mesmos campos que os homens.

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